Atividade física e câncer: mexer o corpo faz diferença?
- Daryane Rezzuto
- 31 de mai.
- 5 min de leitura
Por Dra. Daryane Rezzuto
Oncologia Clínica | Nutrologia Oncológica - CRM-SP: 191.965 | RQE: 6782
Se você ou alguém que você ama está em tratamento contra o câncer, talvez já tenha ouvido a frase: “Descanse bastante, não se esforce demais.”
O descanso é importante. Mas a ciência hoje mostra algo essencial: movimentar o corpo também pode fazer parte do cuidado oncológico.
Isso não significa treinar pesado, ignorar sintomas ou se forçar além do limite. Significa entender que, quando bem orientada, a atividade física pode ajudar o corpo a lidar melhor com o tratamento, preservar função, reduzir sintomas e melhorar qualidade de vida.

Por que a atividade física não é só um detalhe?
A atividade física pode ter impacto em diferentes fases do cuidado oncológico.
1. Antes do diagnóstico
Pessoas fisicamente ativas têm menor risco de desenvolver alguns tipos de câncer, incluindo câncer de mama, intestino, próstata e pulmão.
Isso acontece porque o exercício influencia mecanismos importantes do corpo, como inflamação, metabolismo da glicose, hormônios, imunidade e composição corporal.
2. Após o diagnóstico
Depois do diagnóstico, manter-se ativo pode ajudar na recuperação física, na tolerância ao tratamento e no bem-estar geral.
Em alguns cenários, estudos também associam maior nível de atividade física a menor risco de recorrência e melhor sobrevida. Mas esse benefício depende do tipo de câncer, fase da doença, tratamento realizado e condição clínica do paciente.
3. Durante e depois do tratamento
Quimioterapia, radioterapia, cirurgia e hormonioterapia podem causar fadiga, perda de massa muscular, piora do sono, ansiedade, redução da capacidade física e perda de independência.
A atividade física, quando individualizada, pode ajudar a reduzir esses impactos.
Não é intuição. São dados de centenas de estudos, revisados pelas maiores sociedades médicas do mundo: ASCO, ACSM, ACS e NCCN todas recomendam que a atividade física faça parte do cuidado do paciente oncológico — sempre adaptada para cada pessoa.
Mas aí vem a dúvida mais comum: "Que tipo de exercício eu devo fazer? Caminhada? Academia? Natação?"
A resposta é que existem dois tipos principais de exercício — e as diretrizes recomendam que os pacientes oncológicos pratiquem os dois, de forma combinada. Entender a diferença entre eles é o primeiro passo para montar um plano que faça sentido para o seu caso.
Exercício Aeróbico x Exercício de Resistência: Qual a Diferença?
Antes de falar em dose e frequência, é importante entender que existem dois tipos principais de exercício — e ambos são recomendados para pacientes com câncer.
Exercício Aeróbico
São atividades contínuas e ritmadas, de intensidade moderada, que usam o oxigênio como principal fonte de energia. Envolvem grandes grupos musculares e duram mais tempo.
Para que serve: melhorar a resistência cardiovascular e respiratória.
Exemplos: caminhada rápida, natação, ciclismo, dança.

Exercício de Resistência (Musculação)
Também chamado de treinamento de força, envolve contrações musculares intensas contra uma resistência — pesos, halteres, barras ou o próprio peso corporal. As séries são curtas e repetitivas.
Para que serve: aumentar a força muscular, ganho de massa e densidade óssea.
Exemplos: levantamento de pesos, agachamentos, flexões, supino.

Resumindo: Aeróbico = endurance cardiovascular (longo e moderado). Resistência = força muscular (intenso e curto).
Dose, Intensidade e Frequência: O Que Dizem as Diretrizes?
Essa é a parte que a maioria das pessoas não sabe — e que faz toda a diferença na prática. Veja o que as principais sociedades médicas do mundo recomendam para pacientes oncológicos:
Dose (Quanto Exercício por Semana?)
A recomendação é:
Pelo menos 150 minutos por semana de atividade aeróbica de intensidade moderada, OU
75 minutos por semana de atividade aeróbica de intensidade vigorosa
Exercícios de resistência pelo menos 2 vezes por semana
Parece muito? Lembre-se que isso pode ser distribuído ao longo de toda a semana — não precisa ser de uma só vez.
Intensidade (Com Que Esforço?)
Intensidade Moderada: Você consegue conversar, mas não cantar durante o exercício. O coração trabalha entre 50 e 70% da frequência cardíaca máxima. Exemplos: caminhada rápida, dança, jardinagem ativa.
Intensidade Vigorosa: Envolve maior esforço, com dificuldade para manter uma conversa. O coração trabalha entre 70 e 85% da frequência cardíaca máxima. Exemplos: corrida, ciclismo intenso, natação rápida.
Para pacientes em tratamento, a intensidade deve ser individualizada e ajustada à capacidade de cada pessoa — e pode variar semana a semana dependendo de como você está se sentindo.
Frequência (Quantas Vezes por Semana?)
Exercício aeróbico: distribuído em pelo menos 3 a 5 dias por semana
Treinamento de resistência: 2 ou mais dias não consecutivos por semana
Uma sessão de 30 a 60 minutos já é suficiente para trazer benefícios. O importante é a regularidade.
Quanto Tempo Até Ver Resultados?
São necessárias pelo menos 8 a 12 semanas de prática regular para que os benefícios clínicos sejam significativos. Não espere resultados em uma semana — mas saiba que, por dentro, o seu corpo já está respondendo desde os primeiros dias.
Posso Me Exercitar Durante o Tratamento?
Sim. E essa é talvez a maior surpresa para muitos pacientes.
Mesmo durante a quimioterapia ou radioterapia, é possível se exercitar com segurança — desde que o plano seja individualizado.
A abordagem correta é:
Começar devagar — pequenas sessões de caminhada ou fortalecimento leve se a tolerância for baixa
Progredir gradualmente conforme a tolerância melhora
Ajustar sempre conforme as comorbidades, toxicidades do tratamento e condicionamento físico inicial
Pacientes com metástases ósseas, plaquetas muito baixas ou outras condições específicas precisam de avaliação médica antes de iniciar qualquer programa de exercícios. Não porque não possam se mover — mas porque o plano precisa ser adaptado com segurança.
Antes de Começar: Três Pontos Essenciais
✅ Converse com seu médico — antes de iniciar qualquer atividade física, informe sua equipe de saúde. Cada caso é único.
✅ Tenha orientação adequada — sempre que possível, conte com um profissional de educação física experiente em oncologia.
✅ Vá no seu ritmo — não se compare com quem você era antes do diagnóstico. O objetivo é se mover de forma segura e consistente.

Conclusão
Mexer o corpo é parte do cuidado. Não é luxo, não é exagero — é uma das ferramentas mais bem estudadas para ajudar a prevenir o câncer, controlar a doença e viver melhor por mais tempo.
A ciência está clara. As sociedades médicas estão alinhadas. O que falta, muitas vezes, é informação acessível e orientação individualizada.
Se você quer entender como a atividade física se encaixa no seu caso específico — considerando seu tipo de câncer, tratamento atual e condição física —, esse é exatamente o tipo de conversa que faço nas minhas consultas de nutrologia oncológica, com atendimento online para todo o Brasil.

Dra. Daryane Rezzuto é especialista em Oncologia Clínica e Nutrologia Oncológica, com atendimento online para todo o Brasil. Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta médica individualizada.
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